O que é que devemos fazer para nos aproximarmos dos campeões da inovação?

A publicação dos resultados do Barómetro da Cotec sempre constituiu um momento preferencial para uma reflexão coletiva, não só sobre os investimentos em matéria de I&D que o nosso país realiza, mas também sobre o seu impacto económico e os seus efeitos na sociedade.

E os resultados, publicados recentemente, revelam que continuamos “Cigarras”. Ou seja, continuamos desperdiçadores, mas com muitas potencialidades para toda a sociedade puder usufruir dos crescentes investimentos nas atividades de I&D que realizamos. Contudo as insuficiências e debilidades refletem-se na nossa capacidade de valorizar o conhecimento que produzimos, de reter e atrair os talentos, de otimizar o potencial do empreendedorismo, de produzir e vender patentes, de evoluirmos para tecnologias mais exigentes, …

A Suíça, a Finlândia, a Dinamarca, logo seguidos da Suécia e Alemanha, ocupam os primeiros lugares do ranking, assumindo-se como os países “Abelha”, sendo também interessante assinalar que parceiros económicos tal como a Espanha, a Itália e mesmo a Irlanda ocupam piores posições do que a nossa.

É inegável que o sector público e os privados continuam a reforçar o investimento nas em I&D, sendo também assinalar que o mesmo é materializado em atividades realizadas não apenas nas entidades que constituem o Sistema Cientifico e Tecnológico, mas cada vez mais pelas, e nas, empresas privadas, não sendo de desprezar o efeito de algumas das medidas, promotoras deste investimento, enquadradas no QREN, mas também, e por exemplo, das Bolsas de Doutoramento em Empresas.

Os diferentes programas promotores do surgimento de ideias de negócio, as aceleradoras de ideias, as incubadoras, os excelentes instrumentos, tal como o Passaporte para o Empreendedorismo, coordenado pelo IAPMEI, e o inegável papel da Cotec, têm-se assumido como excelentes oportunidades e momentos para renovar o tecido empresarial, o qual terá de incorporar mais tecnologia, mais conhecimento, mais e melhor inovação e maior orientação para o mercado global.

Contudo, e sem querer entrar nos habituais pessimismos nacionais, temos de, em definitivo, adotar estratégias e abordagens que nos permitam reter os nossos jovens talentos, cada vez mais estimulados por oportunidades provenientes da europa mais rica, e mesmo dos Estados Unidos, captar investigadores, com provas dadas, para os nossos, internacionalmente reconhecidos, excelentes centros de investigação e … assegurar uma melhor relação entre as universidades e as empresas.
Estas duas partes reconhecem a relevância e a urgência desta, não direi aproximação, mas sim intervenção conjunta em projetos com objetivos com impacto no mercado, na economia, assumindo-se contribuintes para a criação de riqueza comprovada, fundamental para o incremento das exportações e o equilíbrio da balança de transações.

Contudo, sendo este imperioso desafio aceite por todos os envolvidos, até porque é estruturante e imprescindível para assegurar a sustentabilidade de qualquer uma das duas partes, o entendimento de como tal poderá ser implementado constitui uma incógnita, reconhecendo-se nos excessivos discursos, demasiadas intenções e promessas que demonstram de boas vontades, muito voluntarismo, exemplos particulares muito interessantes, mas muito, repito muito pouco face ao que é necessário fazer.

O que fazer? Estará a responsabilidade só e apenas no lado das universidades? Efetivamente esta é uma afirmação corrente, mas completamente errada.

As duas partes têm de reconhecer o papel de cada uma, têm de equacionar objetivos comuns, trabalhar ao mesmo ritmo, com o mesmo rigor, fora da zona de conforto de cada uma, com riscos partilhados, com custos e proveitos distribuídos, focalizados só e apenas na criação de riqueza, às vezes sob a coordenação das universidades, mas muitas outras das empresas.

As empresas são avaliadas pelo mercado, as universidades, os seus investigadores e docentes, não podem ser avaliados só e apenas pela qualidade dos artigos científicos que produzem, mas também com base na sua interação com as empresas e na riqueza que os seus projetos proporcionam á sociedade.

Só assim nos aproximaremos dos campeões da inovação.

Júlio Faceira Guedes
 XZ Consultores SA

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